quinta-feira, 5 de março de 2009

Estelionatos afetivos


Após ler a divertida postagem da Patsy sobre os "amigos-cerca" no blog Corporativismo Feminino, resolvi falar um pouco sobre estelionatos afetivos. Estelionato, segundo o Código Penal, art. 171, consiste em "Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento." No entanto, dos golpes que mencionarei, apenas uma pequena parcela seria considerada estelionato do ponto de vista legal. Vou empregar o termo, portanto, em um sentido mais amplo, de tirar vantagem de outra pessoa mediante logro e/ou fingimento de inocência.

Golpe do empréstimo: este se trata de estelionato propriamente dito. Um estelionatário afetivo (EA), aproveitando-se da fragilidade de uma pobre senhorita desesperada por afeto (PSDA), transveste-se de príncipe encantado, promete mundos e fundos, fazendo-a crer que a felicidade bateu em sua porta. Em seguida, conta uma historinha triste à PSDA, dizendo precisar de uma quantia para investir, saldar uma dívida ou algo do gênero, após o que poderão se casar e prosseguir com o conto de fadas. Após pegar o dinheiro, o EA some do mapa, procurando uma nova PSDA em outras paragens.

Golpe do baú: aplicado por homens e mulheres, é um clássico que dispensa apresentações. Um(a) EA, aproveitando-se da feiúra, burrice, senilidade ou ingenuidade de um(a) ricaço(a), simula enamoramento até conseguir firmar compromisso legal, obtendo então sucesso em sua carreira de alpinista social. Pode ou não ser seguido de divórcio, dependendo das conseqüências do mesmo nos bolsos envolvidos. Muitas vezes é aplicado em conjunto com o golpe da barriga.

Golpe da barriga: uma EA, ao perceber que um relacionamento está ameaçado ou ao pretender obter alimentos na justiça, deixa de tomar precauções contraceptivas sem avisar ao parceiro. O verdadeiro golpe da barriga é premeditado, não se confundindo com acidentes e auto-sabotagens. O problema é que uma EA que se preze SEMPRE alegará acidente.

Golpe de enrolar amante: mais comum em homens. Um EA casado conserva o vínculo com sua amante e mantém a lealdade dela em virtude de alimentar sua paixão, alegando que seu relacionamento está deteriorado, mas não pode se separar ainda de sua esposa por algum motivo particular, mas que isso logo ocorrerá. Esta situação, via de regra, é um fracasso anunciado. Se for mentira, ele é um EA e a mulher está sendo feita de boba. Se for verdade, ele é covarde e a mulher está perdendo seu tempo. Para as que gostam de homens casados: procure um honesto, que deixe claro que o casamento vai bem, obrigado. Só as grandes golpistas conseguem roubar o homem casado de sua esposa com o golpe de roubar marido. Ah, você está mesmo apaixonada pelo marido da outra? Más notícias: você não tem o perfil de uma boa golpista.

Golpe de roubar marido: coloquei este nome em lugar de "golpe de roubar cônjuge" porque geralmente é praticado por mulheres. Para funcionar, o alvo precisa ter uma ou mais das seguintes características: ingenuidade; pouca experiência com o sexo oposto; pouca atratividade sexual; crise de meia-idade. Uma senhorita, geralmente bem mais jovem que o senhor, cria situações para que se desenvolva um flerte e surja um caso de amor/sexo de proporções jamais encontradas anteriormente na biografia do alvo. Pelo fato disto nunca ter sido vivenciado antes nesta intensidade, a senhorita consegue virar a cabeça do sujeito, que larga mulher, filhos e até algumas amizades para contrair novas núpcias. Caso falhe, a EA poderá recorrer ao golpe da barriga. Em tempo: se a senhorita de fato se apaixonou pelo alvo, então não é um EA, uma vez que ninguém foi logrado.

Golpe do malabarista: mais típico de homens. O EA se relaciona com várias mulheres ao mesmo tempo, sem que uma saiba da outra, na maioria dos casos. Os malabaristas mais hábeis conseguem fazer o mesmo truque com todas as mulheres sabendo umas das outras, fazendo porém com que fiquem com raiva das rivais e não do "galante sedutor", uma vez que ele convence cada uma delas de ser a que de fato é especial.

Golpe do amigo café-com-leite: mais tipicamente praticado por mulheres. Em momentos em que não estão muito seguras de seu próprio valor, certas mulheres se deixam paparicar por sujeitos que, sem pegada suficiente para cortejá-las direito, ficam rodeando e adulando, crentes de que estão comendo o mingau pelas beiradas. Sem interesse afetivo/sexual no sujeito, apesar de perceberem que o clima é mais de “Eu preciso dizer que te amo” - aquela canção do Cazuza - do que de outra coisa, elas trocam a atenção e a bajulação por uma falsa esperança que vem de umas migalhas de atenção jogadas estrategicamente. Por que é um EA? Porque em uma transação legítima, ambas as partes recebem o que querem. Esta situação perdura até que o sujeito faça - ou pareça estar prestes a fazer - uma besteira, como escrever um poema de mil versos em um rolo de papel higiênico e aparecer declamando em frente ao prédio dela, com a TV filmando, claro.

E você, conhece mais alguma forma de Estelionato Afetivo?

6 comentários:

Didi Iashin disse...

Vamos dizer que é um golpe pé de chinelo, mas tem aquele do cara que chega prá garota e diz, todo tristinho: meu casamento não funciona mais ... estou com ela por causa dos filhos, do cachorrinho Pogo, do peixinho dourado ...
Os outros estão em onze de cada dez novelas ocidentais (não falo das orientais porque não conheço ...)
Antes do almoço, grande estimulante!!

milu leite disse...

tu tá em perigo de golpe, paulinho?
olha lá, hein?
desculpa, mas vc me instiga sempre uma vontade de ~fazer piada. por que será?
bjo

marlise disse...

Parabéns pelo post, Paulo. Os EA é realmente um problema, uma situação difícil. Pobres dos que se relacionam com um. Abraços.

Drama Queen disse...

Malabarista e Café-com-leite... porque será que não me parecem estranhos?

Hellis disse...

Seria muito horrível assumir com bastante vergonha que já pratiquei o Golpe do amigo café-com-leite?=X

Anônimo disse...

Eu acho que acabei de ser vítima de um estelionato afetivo tipo amiga-café-com-leite. Só que eu sou mulher. Funciona assim: Uma mulher suspeita que eu sou bisexual, ela está querendo ser bajulada e adorada por mim mas ela é hétero e tem um parceiro estável que provavelmente não vive de 4 por ela. Ela gosta de me ver como um fantoche nas suas mãos. Ah... ele é bonita e gostosa ! Então ela começa a me dar migalhas de sedução. OBS: ela só faz isso em público (pois sabe que se fizer no privado eu posso perder o controle e tentar tascar um beijo e isso acabaria com o disfarce dela porque ela não tem a menor intenção de me beijar). Quando a pessoa em questão é uma bisexual que não pode assumir por causa da família, da religião, etc, a sedutora deita e rola mas quando a pessoa em questão, no caso eu, se assume e parte pra cima ela diz: Naaaaão, nunca, você entendeu tudo errado. Eu já caí nesse golpe 3 vezes, era pra ser 4 mas do penúltimo eu saquei e me livrei antes de me declarar totalmente apaixonada. A última era um caso de amor antigo, quando eu a conheci eu era muito jovem. Ela reapareceu e eu acabei abrindo a guarda porque acho que no passado, quando ela me seduzia, nem ela mesma tinha consciencia do que fazia. Pra falar a verdade acho que até hoje não tem. Todo mundo que é vítima de estelionato emocional sempre carrega uma parcela de responsabilidade. Porque agente se recusa a ver. Porque agente valoriza muito a beleza e se apaixona por aquela pessoa que gostaríamos de ser fisicamente mesmo que não saibamos quase nada sobre o conteúdo verdadeiro do seu coração. Dificilmente você vai ver um golpista emocional pobre, velho, feio. A maioria é gente bonita. Nós queremos vampirizar a beleza deles, eles querem vampirizar a nossa atenção. Não culpo as mulheres que me deram esse golpe. Em minha defesa posso dizer que tive uma infância e uma família em um mundo que faz agente se sentir tão feio que perde o juizo diante da beleza e do charme. Talvez essas mulheres também sejam vítimas de uma infãncia, família e mundo que as faça agir assim. Eu quero o bem delas, de certa forma eu ainda as amo, toda vez que uma delas passa pela minha vida, elas me ensinam muito, talvez seja porque elas me amam da forma delas. Elas me ensinam que enquanto eu não me achar tão bonita quanto elas (ainda que os outros não concordem)eu serei sempre uma marionete da beleza alheia. Elas me ensinam que mulheres que querem amar buscam construir na intimidade e não na superficialidade. Elas me ensinam, sobretudo, a olhar ao redor e ver aqueles homens e mulheres que realmente me amam, que cuidam de mim, que me apoiam mesmo quando não me entendem, que podem estar muito fora dos padrões de beleza mas que estão bem dentro dos padrões da compaixão e do amor desisteressado.

 
design by suckmylolly.com